Lições que Aprendi Correndo pelo Mundo

A paixão pelo desafio e os limites do nosso corpo

Início dos anos 90 e eu já malhava intensamente, numa época em que a cultura do fitness não era comum. Envolvida pelo espírito esportivo, resolvi começar a correr. Comecei correndo 3, 4, 5 até que cheguei aos 7 km.

Em 1995, surgiu a meia maratona do dia do trabalhador e me inscrevi sem muitas expectativas.
Iniciada a corrida, e eu bem preparada e empolgada com a possibilidade de completar os 21 km num bom tempo, olho para o lado e vejo uma senhorinha com cabelos brancos, correndo… Na minha vaidade dos 30 e poucos anos, pensei: “Mas é claro que vou chegar antes dessa senhora! ”

Quando descobri que ela chegou primeiro, fiquei arrasada e resolvi treinar um ano inteiro para alcançar meu ideal olímpico.

No ano seguinte, comunico aos meus alunos que iria correr e eles se prontificam a me acompanhar de bike e me fornecer água. Chego na largada, procuro minha “rival”, a senhora de cabeça branca, largo na frente e passo a corrida inteira mantendo a distância.

Faltando uns 2 km para a chegada, eu com larga diferença, comento com meu aluno que estou morrendo de calor, ele me aconselha molhar a cabeça e o corpo para refrescar. Feito isso, minhas pernas travaram, fiquei com cãibra e a senhora me ultrapassou novamente.

Como boa perdedora, fui até a senhora parabenizá-la e disse-lhe que meu sonho era vencê-la. Ela deu uma gargalhada e me disse que era aposentada, treinava todos os dias e era campeã em sua faixa etária.

Lição #1

Aprendi uma das primeiras lições das corridas: não subestimar as pessoas pela aparência. Isso me inspirou a querer melhorar e mais, desafiando meu corpo e a mim mesma.
O tempo passou, a vida me levou para outros caminhos, trabalhos, filhos… e acabei me afastando das corridas. Mas a vontade continuava gritante e, ao completar 50 anos, consegui voltar às meias maratonas. Mesmo com pouco treino, voltei a me inscrever e correr em todas e estou nesse pique até hoje.

Lição #2

A insistência é fundamental para realizar nossos desejos!

 

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Certo dia, li sobre a corrida X-Terra que seria na montanha. Não pesquisei absolutamente nada a respeito, apenas vi que seria em Tiradentes, uma ótima oportunidade para correr e conhecer a cidade. A corrida seria à noite, achei o máximo e ainda assim não fui buscar mais informações.

Dada a largada, já começamos com uma ladeira bem íngreme, onde muitos já ficaram por ali. Ao fim da ladeira, cruzamos um rio, e já com o tênis molhado e pesado, continuei correndo. Corríamos com uma lanterna na testa. Como sou lenta, por muito tempo ao longo dos 19 km corri sozinha.

Num determinado momento, vi uma luz à minha frente, me aproximei e ouvi: “MUUUUUU! ”. Ficamos cara a cara, eu e a vaca. Continuei correndo.

De repente, o percurso começou a ficar inclinado, ficando mais íngreme a ponto de ter que segurar na vegetação para me apoiar.

Em seguida, começa uma descida, depois outra subida e então um trecho plano. Já cansada, avistei uma pessoa na minha frente e apertei o passo. Quanto mais eu me aproximava, mais a pessoa corria, quando já não aguentava mais, pedi para a pessoa me aguardar.

Concluí o percurso no tempo limite, realizada e satisfeita comigo. Aprendi que não preciso saber o caminho antecipadamente de nada, apenas vivo, e isso é muito bom, pois superar o próprio limite é algo que se leva pra vida toda.

Lição #3

O bom da vida é viver as surpresas!

 

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Correndo mundo afora

 

Inspirada pelo sentimento de superação na prova da X-Terra e ainda pelo fato de conhecer outro lugar, me inscrevi para a Meia Maratona de Punta del Este, em 2013.

Mais um desfio, e agora já sabendo como é bom descobrir caminho enquanto corro, novamente não procurei saber o percurso.
Punta del Este já era um lugar querido para mim, imagina correr com aquela paisagem deslumbrante… Geralmente a meia maratona é em Setembro, e como no Hemisfério Sul é primavera, não me preocupei com o frio.

Qual foi a minha surpresa? O frio era congelante, uma vez que a corrida era na orla. Um vento que doía na alma! Muitos corredores de elite não concluíram o percurso, pois foram prejudicados pelas câimbras. Eu, por já ter experiência com isso, fui para a corrida com gel específico para não sofrer e consegui concluir.

 

Lição #4

Não temos o controle de tudo, mas aprendemos algo novo com cada experiência.

Podemos nos preparar, mas alguns fatores podem nos tirar da rota, e devemos entender que o controle não está em nossas mãos. Devemos nos jogar nas oportunidades e aproveitar o máximo.

 

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A empolgação em correr fora do Brasil me jogou de vez nas Meias Maratonas no exterior e minha seguinte invenção foi correr a Paris-Versailles, em 2014. Já que estava indo para mais distante, por que não começar por Paris?

Dessa vez, fui mais preparada:  mais aquecida, levei acessórios do Brasil na cabeça e no braço, carreguei uma bandeirinha por todo o percurso e também no deslocamento do hotel até a largada.

Encontrei brasileiros que moram na Europa participando da corrida. Muitos fizeram questão de tirar foto comigo, segurando a nossa bandeira. Descobri que somos muito queridos. Por onde eu passava, ouvia saudações: Brasil!!! E isso foi incrivelmente estimulante!

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A largada foi dada e descobri que teríamos bandas a cada quilometro tocando músicas populares de cada país.

No primeiro quilômetro, ao avistarem minha bandeira, tocaram Garota de Ipanema, a multidão que acompanhava a corrida gritava “Brasil”. Impossível não se emocionar. Me emociono cada vez que lembro disso.

 

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Ao longo do percurso, ouvi música italiana, americana, francesa, espanhola, a corrida em si foi um deleite! Corremos pelos subúrbios de Paris, uma delícia, limpos, organizados, excelentes para morar, com muitas ladeiras, algumas bem íngremes, passando ainda por um jardim belíssimo na periferia de Versailles.
Concluo mais essa corrida sempre com a sensação do vim, vi e venci a mim mesma.

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Lição #5

As corridas têm uma relação metafórica com a vida.

Sim. Assim como na corrida, deveria ser a vida. Não tem rico, não tem pobre, não tem branco, amarelo ou negro, não tem católico, judeu ou mulçumano. Todos somos iguais, e cada um tem o seu valor.

 

Embalada pela empolgação das corridas e por descobrir novos destinos, corri esse ano de 2016 na Meia Maratona da Patagônia em Torres del Paine, no Chile.

Minha única preocupação era com relação ao frio. Iniciada a corrida, o frio era extremo. Tínhamos que ficar pulando aguardando a largada pois nem com inúmeros agasalhos nos confortávamos.
A corrida se inicia e já enfrentamos a primeira subida íngreme. A primeira de muitas. Na verdade, 85% da corrida é com subidas. O esforço é intenso, entretanto, para cada km sofrido, éramos contemplados com imagens cinematográficas.

Visual deslumbrante, vistas das torres cobertas de gelo em contraste com o azul do céu, dos Lagos com águas nos tons que variavam do verde esmeralda ao azul turquesa. Em cada posto de água, gastava alguns minutos contemplando a paisagem e fotografando.

Meu tempo foi pior de todas as meias, mas para que me preocupar com o tempo se eu tinha todo o tempo do mundo para me deleitar com cenários que jamais avistaria se não estivesse na corrida?!

 

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Lição #6

Como aproveitar o tempo da melhor maneira?

O tempo é relativo: em alguns momentos mais vale uma parada para uma bela reflexão do que chegar mais rápido. Afinal, minha medalha foi conquistada a cada clique da câmera.

 

Continuando nessa onda, corri ainda a Meia de Buenos Aires em 2014, a Volta da Pampulha em 2012,2013 e 2014, as Meias Internacionais do Rio em 2012,2013 e 2016 (essas são cartões postais durante todo o percurso) e a da Ponte Rio-Niterói em 2012 (onde muitas pessoas fizeram tempo ruim pois paravam para admirar e fotografar a Baía de Guanabara), X-Terra de Ilha Bela em 2015 (essa foi especial, pois corri com meus filhos que me deram a presença deles como presente do dia das mães).

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Movida pelo espírito aventureiro, para 2017 está prevista a Meia maratona da Muralha da China, a São Silvestre e já confirmada a Paris Versailles.

Na verdade, hoje já não sei se corro como desculpa para viajar ou se viajo como desculpa para correr.

 


 

E você, também tem alguma lição aprendida que gostaria de dividir conosco?

Deixe um comentário aqui embaixo contando as experiências e lições que aprendeu durante suas aventuras na vida! Quem sabe você pode ser o escritor do próximo post do blog da Liao Experience?

Sobre Liniana Liao

Sócia Proprietária da empresa Liao Experience, professora de matemática, aposentada e aventureira de alma! Ama pesquisar novos roteiros para os lugares mais exóticos e surpreendentes. Está sempre em busca de um novo desafio para superar seus limites.